Ando ouvindo e lendo sobre a necessidade de profissionais na área de TI. Realmente desde 1995 quando comecei a dar os primeiros passos na área até hoje, ouço sobre a necessidade de profissionais na área. Mas vamos analisar um pouco a situação um pouco mais de perto. Em meados da década de 90 os computadores pessoais começaram a se tornar algo mais acessível e com o advento das interfaces gráficas a computação deixava de ser algo para nerds que passavam horas e horas enfiados atrás de computadores fazendo coisas que para os outros eram entediantes e intermináveis. Agora com uma coisinha chamada mouse era possível ter o domínio completo da máquina, era como se fossemos um tipo de Deus diante de um reles mortal. Com isso mais e mais pessoas começaram a se interessar por essas formidáveis máquinas; parecia fácil dominar a máquina e com isso vinha o raciocínio de que seria fácil ganhar dinheiro trabalhando com computadores; aí eis que mais e mais pessoas decidiam ir trabalhar com os tais computadores, vendo este novo nicho de mercado escolas e mais escolas começaram a brotar nas cidades grandes e destas para o interior. Era espantosa a quantidade de escolas de informática que se tinha na cidade do interior de onde venho. Numa mesma rua a uma distância de pouco mais de 100 metros havia três. Estou me referindo apenas a uma rua de 3 quarteirões. Os cursos de datilografia foram substituídos pelos de digitação, as escolas borbulhavam de gente. Neste início e bem no início me lembro bem que os instrutores em geral eram pessoas com ilibada formação acadêmica, geralmente matemáticos, engenheiros e profissionais formados no então curso universitário de Processamento de Dados. Mas também rapidamente vi outras pessoas que se quer tinham domínio da área técnica ministrar cursos. Eu mesmo e muitos amigos aos 17 anos dávamos aulas de DOS, Windows 95 e Office e olha que nesta época eu ainda cursava o colegial técnico em Eletrotécnica. Nesta época acessar a internet era muito caro e os sites de buscas estavam no começo e o browser bom ainda era o Netscape; por isso uma pessoa que se dispunha a aprender a programar, por exemplo, tinha que debruçar-se sobre livros de lógica, da linguagem escolhida (pascal, Clipper, basic, c, entre outras) e só depois de aprender isso é que decidia trabalhar com isso. Hoje em dia vejo pessoas que decidem ir para a área de informática só porque gostam de passar horas e horas em intermináveis conversas em chats e não sabem “o que querem se quando crescer” e por falta de iniciativa acabam vindo parar nesta área. Pois afinal de contas hoje em dia é muito simples tornar-se um “profissional” de TI. Se você não sabe, basta entrar no Google que alguém já fez e acabará encontrando uma maneira de como fazer. Concordo que hoje em dia as coisas se tornaram muito especializadas que existem dezenas e dezenas de linguagens de desenvolvimento e dentro destas existe sempre mais de uma linha para se seguir. O grande problema que vejo é exatamente este, não há mão de obra especializada em determinada coisa, há muitas pessoas que sabem enrolar e tantas outras que nem isso sabem, mas que são muito caras de pau ao dizerem que sabem.
Certa vez ao ingressar em uma grande empresa, respeitada pela sua inovação tecnológica, segurança e importância das informações nas quais ela lidava, pensei que eu não deveria saber um décimo do que as pessoas que ali trabalhavam, e, que eu não duraria muito tempo, pois não me julgava a altura de tais profissionais. Eis que para minha grande surpresa encontrei muito mais pessoas que sabiam menos do que eu esperava. Pessoas que estavam há anos na empresa, mas que não detinham conhecimento técnico algum (mesmo ocupando cargos altamente técnicos). Foi então que logo procurei uma equipe onde as pessoas soubessem mais do que eu, pois trabalhar apenas com quem sabe menos que você não é garantia de emprego e sim garantia de que irá aprender enquanto ensina, mas que não se aprenderá num ritmo tão grande quanto se pode aprender com pessoas que possuem o mesmo nível ou superior ao seu. Já trabalhando com pessoas tecnicamente superiores, você é compelido a estudar mais, a observar mais, para que tentar chegar onde estas pessoas estão. Não quero dizer aqui que sou o bonzão, ou que ser arrogante a ponto de dizer que quem sabe menos não pode ensinar, não é isso. O que quero dizer é que quem tem vontade de aprender sempre procura quem tem algo pra ensinar. Mas que ensinar também faz parte do processo de aprendizado e que ter medo de perguntar e dizer que não sabe é muito pior do que dizer que sabe e na hora H não saber. Afinal de contas ninguém sabe tudo e sempre se pode aprender. É como diz um amigo “Ninguém nasce aprendido”.
Por um outro lado as empresas reclamam da falta de mão de obra qualificada, mas pagando salários medíocres o que elas irão conseguir são empregado medíocres. Como é que um profissional pode garantir que está atualizado, que é bem qualificado se não dispõe de recursos para isso. Algumas empresas por outro lado decidem investir em seus funcionários e pagam treinamentos e até mesmo constroem centros de treinamentos para que seus profissionais estejam sempre atualizados e bem informados. Isso é bom para a empresa e para o colaborador. Mas elas devem ter em mente que apenas treinamentos não bastam para que haja bons profissionais em seus quadros. Hoje mais do que nunca o gestor não deve olhar apenas para o desempenho do profissional, é preciso que haja um planejamento junto ao colaborador sobre como será sua formação. Pois de nada adianta dar um treinamento de Cobol para um profissional .net por exemplo e dizer que dá treinamentos aos seus colaboradores. Contudo infelizmente vejo isso acontecer, pura e simplesmente por determinações superiores; profissionais se submetem a longos, entediantes e nada proveitosos treinamentos, onde ele só quer que a hora do coffee chegue e depois a hora de ir embora. Uma outra coisa que falta também é a capacidade técnica dos instrutores. Infelizmente a capacidade técnica e analítica foi banalizada e é tratada pela maioria das empresas de uma forma simplória; sem que as empresas se dêem conta de que muitas vezes o core do negócio está justamente nesta área. É necessário fomentar a livre iniciativa de pensar, de inovar e fazer com que o profissional sinta prazer no que faz para fazer com prazer. E não matar as idéias antes mesmos que elas terminem de ser esplanadas. Vejo isso acontecer muito.
Se as empresas comprassem as idéias de seus funcionários talvez seus negócios prosperassem mais e talvez houvesse mais mão de obra especializada e interessada em fazer algo que dá prazer ao invés de algo que nos deixa longe de nossas famílias, que não nos permite trabalhar jornadas justas e ganhar o justo. Veja o exemplo do Google, é uma empresa onde se trabalha muito, mas as pessoas trabalham com entusiasmo e muito mais pessoas tem vontade de trabalhar lá, pois há espaço para os colaboradores exporem suas idéias, isso faz com que eles aprendam mais, se especializem mais e cada vez mais tragam lucros para a empresa.
Escrito em March 15th, 2010 as 11:34 am por Pablo Roveroni



2 Respostas to “Escassez ou Ingerência de profissionais de TI?”
Roberto Hess Campos
1 year ago
Muito bom o artigo Pablo, as empresas cada vez mais dependerão de tecnologia e sistemas, a procura por profissionais é grande e a qualidades dos profissionais é no mínimo questionável. Abraços. Roberto.
Alexandro Antonio Blini Maceiras
1 year ago
Cara, eu estava procurando sobre Early Bind e Late Bind em C# e achei um artigo seu e vim parar aqui vendo seu blog.
Acho que o principal do seu artigo é sobre os salários! Eu sou um profissional em TI a 21 anos e não me dá muito interesse em me aprofundar por exemplo em C# nas últimas implementações que a linguagem teve depois da versão 2.0 pra frente sendo que desde que eu iniciei na framework 2.0 até hoje nunca tive um aumento de salário real e venho ganhando entre 35 e 45 reais/hora dependendo do contrato, assim como posso comprar livros novos e caros de 500 ou 1000 páginas ou fazer cursos e adquirir novos conhecimentos sobre as novas implementações passando horas na frente do micro se o mercado não me incentiva ?
Quando eu comecei com c# em 2003 ninguém vinha com uma provinha perguntando o que era Early Bind e Late Bind por exemplo, eu tive que aprender OOP (emcapsulamento, herança e polimorfismo) sendo que este é o básico para se fazer qualquer sistema em C# ou qualquer linguagem OOP, estas especificações que o mercado impoem são na maioria um absurdo ao profissional que nunca são utilizadas na composição do projeto. Somente são exigidas para entrar!
Isto vira uma palhaçada! É como quando eu aprendi UML, e depois percebi que nenhum lugar que exigia que se soubesse UML utilizava ele na elaboração do projeto! Só utilizava aquela exigência pra discrimir o profissional.
A grande realidade é que o mercado esta deturpado com muitos MANÉS que não sabem nada e a empresa que é composta de outros MANÉS não sabe discriminar quem é um MANÉ que não sabe nada de um profissional realmente e assim faz provinhas exigindo as coisas mais cabulosas da linguagem para diferenciar um do outro sendo que estas coisas que quase nunca se usa, e ninguém tém decór, faz o profissional ser discriminado de incopetente pois não tém aquilo na memória mas que poderia muito bém utilizar como um recurso a mais que ele fosse simplesmente pesquisar quando precisasse.