Percebo que no Brasil o comportamento dos profissionais da área de TI está mudando. Desde que ingressei profissionalmente na área em meados da década de 90, percebo um enorme movimento que a maioria das empresas ainda não se deu conta. Algumas já perceberam, mas ainda não entenderam; raras são as que perceberam e entenderam. Na verdade este último grupo, acredito que é produto do movimento em questão.
Mas que raio de movimento é este? Simples…, antigamente o sonho de todo profissional de TI era trabalhar em uma grande corporação, que pagasse altos salários e que proporcionasse um certo frisson quando se dissesse o nome da empresa. Mesmo que você não ocupasse um alto cargo em uma grande corporação, só de você trabalhar lá você já era considerado um semideus. Para os meus pais isso ainda é de grande valor. Você trabalhar numa empresa grande, sólida, que pague em dia, que te dê um plano de saúde e um vale refeição é tudo que a geração deles sempre quis. Só para se ter uma ideia, meu pai só passou a me considerar um “adulto responsável” a partir do momento em que fui trabalhar em uma grande corporação. Para eles não importa se você trabalha em um lugar onde você se sente bem; para eles o que importa é o nome da empresa que você trabalha. E é aí que quero chegar. A maioria das grandes corporações possui em seu corpo executivo e gestores pessoas que pensam assim; que pensam que apenas pelo simples fato de se tratar de uma empresa grande as pessoas vão querer trabalhar lá. Confesso que é legal trabalhar em uma grande corporação, onde os benefícios são bons, mas o ambiente de trabalho geralmente não. Mas como pode uma empresa sólida, com muitos e muitos anos de mercado, que paga em dia, com tantos benefícios, não ser mais atrativa para os novos trabalhadores e haver tanta debanda? As grandes corporações que já perceberam este movimento, seja porque não está mais entre as mais desejadas para se trabalhar pelo público jovem; seja porque não está conseguindo reter os profissionais que realmente sabem trabalhar em equipe, “que fazem acontecer”, os extremamente técnicos; ou, no que considero a pior de todas, as duas situações anteriores juntas. Estas empresas que conseguiram detectar e que se perguntam: Porque os meus profissionais preferem ir trabalhar no Google, no Facebook, ou na empresinha X que é totalmente desconhecida, do que na minha empresa? Estas empresas PODEM conseguir reverter este quadro. Não será fácil, pois trata-se de uma mudança de paradigma. Já as que ainda nem se quer detectaram isso, a meu ver, estão fadadas ao fracasso.
Digo que se trata de uma mudança de paradigma, porque o profissional de TI de hoje não vislumbra apenas o benefício financeiro, ele busca um lugar onde ele possa trabalhar de maneira comprometida, porém alegre. Um lugar que ele sinta que ele realmente pode contribuir não apenas para uma empresa melhor, mas para um mundo melhor. Um lugar onde ele possa dar uma ideia e ela realmente seja tratada como tal, com a mesma seriedade e comprometimento que é exigido dele ao executar o seu trabalho. Porém é como eu disse, as empresas estão sempre dispostas a dizer como você tem que fazer o seu trabalho e nunca te ouvem sobre o que pode ser melhorado.
Pelas minhas andanças vejo empresas que cobram para que o profissional contribua com ideias, que traga inovações no jeito de fazer as coisas. No começo os profissionais ficam felizes, trazem todas as ideias que têm. Mas deparam-se com paredões impossíveis de ser transpostos e com o passar do tempo isso os desestimula, já que percebem que nada mudou. Aí pegam todas aquelas grandes ideias e jogam no lixo e se conformam e continuam na empresa apenas pelo salário e os benefícios, ou, mudam de empresa em busca desta realização profissional. Ao fim de um tempo, o profissional mudou tanto de empresa que percebe que no fundo todas elas são iguais e então decide montar a sua própria. Aí ele tem a oportunidade de prestar serviços para estas mesmas empresas em que trabalhou, onde quando ele apresenta estas mesmas ideias que já apresentou num passado não tão distante, ele é aplaudido, visto como um gênio e muito melhor do que a daquele funcionário que todos os dias traz novas ideias; mesmo que as ideias sejam idênticas e que a empresa irá desembolsar centenas de vezes mais; se for dada por alguém de fora é muito melhor do que a mesma ideia dada pelo seu funcionário. É por isso que cada vez mais vemos empresas nascerem e crescerem tão depressa e serem objetos de desejo dos novos profissionais e dos mais experientes também.
Quando as empresas começarem a entender o sentido da palavra colaborador, quem sabe elas não entendam que o grande segredo é permitir que seus “funcionários” se sintam e saibam que são colaboradores, que colaboram não só para o crescimento da empresa, mas que colaboram com ideias que podem porque não mudar a forma como a empresa trabalha e vê o mercado, que colaboram com a sociedade e que percebam que eles realmente fazem parte de um todo. Se as empresas perceberem que se seguirem os modelos colaborativos das rede-sociais as farão produzir mais e consequentemente lucrar mais, com toda certeza serão objeto de desejo dos profissionais e terão sempre em seus quadros os melhores, mais capacitados e mais motivados profissionais do mercado.
Meu grande amigo Bill (Guilherme Bacellar), me mandou este vídeo do Jason Fried e ele vem corroborar muito com tudo isso que eu disse.
Posts Relacionados:



Be the first to start a conversation